domingo, 22 de outubro de 2017

À morte

Esta vida frágil, que pouco dura
É caminho reto em direção a morte
De fato, nos fornece passaporte
Para viagem a uma prisão escura.

A última morada, a tal sepultura
Ideia que não há quem a suporte
Então não será nem questão de sorte
É o preço final da vida aventura.

Descemos então ao sepulcro gelado
Após nosso derradeiro suspiro
Com o velho coração já parado.

E ao negror terrível eu me refiro
Àquele que a ninguém será negado
A não ser ao corpo de algum vampiro.

sábado, 21 de outubro de 2017

Nosso tango

Tango que funciona como adaga
Algo de todo modo muito ruim
Nado ancho onde você naufraga
Gosto destes oceanos sem fim.

Onde navego nesta minha saga
Até que implores: voltes para mim!
Soluçando então, vertendo em bagas.
Sabe que entre nós deve ser assim.

Até nos imolarmos em chamas
Sem vibrar as cordas do violino
Silenciosos, quedos, sem proclamas.

Irrelevante pra mim os teus dramas
Neste morrer, neste teu desatino
O que quero, é tê-la nua nesta cama.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O mar

O avesso de Augusto dos Anjos

O mar é alegre sob qualquer critério;
Cada cor abrandada revela a doçura,
Da coberta de espuma sua brancura
Até pontuais marés e seu gesto sério.

Ah! dirão, e a profundeza de mistério,
Cujo fundo se encontra àquela lonjura
De amplidão imensurável e tão escura
Do tamanho de um inteiro hemisfério?

Quando à mente tais questões tragas,
Pense na água, não apenas nas fragas,
De modo que qualquer dúvida se esvai.

Refletindo a luz do avermelhado poente
O poeta transcende pelo que vê e sente,
Então chora quando a sua ficha lhe cai.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Essa tal de vida...

Existe uma força descomunal
A qual, por si, cria e destrói igualmente
Está presente em qualquer animal
Como em plantas, da raíz à semente.

Tudo ela corrompe até seu final
Pois vai seguindo amoque e tudo sente
Sendo indiferente ao bem e ao mal
É dinâmica, sempre indo pra frente.

Quem a tem, acha-se um ente de sorte
Mesmo sendo caminho só de ida
E que as vezes nosso sonho aborte.

Podendo ser ela curta ou comprida
Ainda que achem que se trata de morte
Saibam! seu nome de batismo é vida.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Velhice

As vezes me sinto velho e cansado
E sento-me, a lamber minhas feridas
Então me vêm dores indefinidas
Que maltratam este corpo fatigado.

Sinceramente? Sou gente “no estado”
Que já viveu, talvez, múltiplas vidas
E que anda sobre estas pernas tremidas
Vive de teimoso, como o ditado.

Acompanha-me constante fadiga
Que portanto já se tornou amiga
Então minha autonomia governa.

Veja, ser um velho me deixa farto
Mesmo sabendo que bem logo parto
Para que a desgraça não seja eterna.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Nossos grilhões

Corpo livre, mas sua mente escrava
Essa sociedade nos põe grilhões
Só somos livres com nossos botões
Tevê, buraco nas mentes escava.

Porque a lida do dia-a-dia é brava
Cheias de tretas, muitas decepções
Pois em nós predominam os senões
Eis que tudo que é sólido, deprava.

Não mais existe pensamento puro
E não há nenhum caminho seguro
Existir? evento eivado de liças.

Vítimas e algozes da natureza
Esta que nos põe alimento na mesa
E que demanda nossas preguiças.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Morte

Por mais que conquistemos nesta vida
Marchamos em direção à sepultura
Malcheirosa, esconsa, também escura
Recôndito de carne apodrecida.

Porém a morte será fim da lida,
Dessa existência que se fez ventura
Fornecida pra cada criatura
Numa senda medonha desmedida.

E a morte será o único evento
Completo, final e definitivo
Que não admite sequer complemento.

Ela alcança todo e qualquer ser vivo
Pois não contempla nenhum sentimento
E também não explica se tem motivo.